A VIDA DA MORTE
Trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; e assim nós que vivemos estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. 2 Coríntios 4:10-11.
Nós nascemos neste mundo sob o domínio da morte. A raça humana, em conseqüência do pecado, está contaminada por um vírus mortal. Nós nascemos com uma vida limitada pelo perímetro da extinção. Todo homem nasce com a sina do extermínio. Não nascemos para viver, apenas vivemos para morrer.
A vida que herdamos de Adão encontra-se completamente infestada da rebeldia do pecado, e, com efeito, somos reféns da morte. Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Romanos 5:12.
Todos nós somos da linhagem da morte, pois a raiz do pecado resulta de fato numa espécie moribunda. Nossa história aponta para um funeral algum dia, pois cada instante da vida é um passo para a morte. Assim, nascer é começar a morrer, dizia Pierre Cornielle. Deus deu ao homem, no jardim do Éden, duas opções: a árvore da vida e a árvore que resultava na morte. Por razões interesseiras o homem preferiu a planta da morte e a nossa geração ficou essencialmente comprometida com a sepultura. O mundo é um grande hospital e cada pessoa é um paciente desenganado. Todos nascem com o atestado de óbito previsto.
A estatística mais exata que se pode avaliar é: de cada pessoa que nasce no mundo, uma morre. Assim, a morte exclui a diferença entre o rei e o mendigo e derruba tanto o cavaleiro quanto o peão. Não há lógica no mundo da morte, pois quando suas garras se manifestam lá se vão os sadios e os doentes, tanto os velhos como as crianças. Ela é a rainha que domina o mundo do pecado, nivelando todos os homens ao título de defunto.
Mas a morte, antes de fazer um cadáver, faz um solitário. A morte não é extinção, em qualquer acepção dessa palavra. É sempre separação. Com o pecado, o homem ficou separado de Deus. Este isolamento espiritual é realmente a conotação mais abrangente da morte.
Insulado no egoísmo, a raça humana encontra-se afastada de Deus. Desligada da árvore da vida, seus motivos existenciais ficam torturados pelos flagelos da extinção. Separado da vida de Deus, o homem é governado pelos temores da morte. Somos uma geração de mortos espirituais contaminados com os pavores da morte andando num corpo mortal.
A raça adâmica é uma espécie de fantasma encarnado, forçando a pulsação do sangue de um cadáver. O homem natural é apenas um instante da alma vivente. Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Tiago 4:14.
Por mais vivo que pareçamos, estamos todos nós inseridos nos limites de um ataúde. O pecado abriu as portas do óbito e nós somos prisioneiros de um sistema funesto que nos empurra para a cova. Foi por este motivo que Jesus Cristo se encarnou.
O ser humano é um cativo da morte e Cristo tinha como objetivo salvar o homem do pecado e da morte, sendo, por isso, necessária sua encarnação como homem. Visto como os filhos participam de carne e sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda vida sujeitos à servidão. Hebreus 2:14-15.
Se não fosse por causa do pecado de Adão, a morte nunca teria tido um princípio; e se não fosse por causa da morte de Cristo, o pecado nunca teria fim. Jesus se encarnou para encarar as conseqüências do pecado e destruir, por meio de sua morte, a tirania do pecado e da morte, aniquilando o déspota infernal da morte. Na sua morte Jesus matou a morte.
A obra consumada de Jesus Cristo é a salvação eterna do homem, que está sendo executada em dois tempos. Primeiro, a salvação espiritual que foi iniciada na cruz e concluída na ressurreição. Segundo, a salvação do corpo que será realizada quando o Senhor Jesus retornar para buscar os santos e depois implantar o seu reino.
A obra de Cristo é perfeita. Antes de regenerar o corpo ele regenera o espírito. A salvação espiritual sustenta os santos propósitos de Deus. Mesmo com um corpo mortal sujeito às tentações do pecado, o ser humano regenerado pela vida de Cristo pode viver, aqui e agora na terra, uma vida de profunda santidade.
Ainda que o nosso corpo esteja sujeito à morte, sem qualquer possibilidade de escape, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte. Romanos 8:1-2. O Espírito vence a carne.
Uma vez participantes da morte de Cristo, fomos julgados, condenados e isentados de todos os efeitos espirituais do pecado. Fomos incluídos no corpo crucificado de Jesus Cristo no Calvário para sermos co-participantes de sua morte para o pecado, e assim sermos justificados do pecado. Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais o pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Romanos 6:6-7.
A mesma Bíblia que anuncia como verdade a morte do Jesus histórico anuncia a nossa morte juntamente com ele. Se for fato histórico que Jesus morreu na cruz, é fato de fé e também de revelação divina, que nós morremos com ele na mesma cruz. Do mesmo modo como Cristo ressuscitou dentre os mortos, nós também ressuscitamos espiritualmente com a vida de Cristo. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança de sua morte, também o seremos na da sua ressurreição. Romanos 6:5.
A grande verdade das Escrituras com relação aos pecadores é que Cristo atraiu a todos no seu corpo quando foi levantado da terra na cruz e, deste modo, realizou uma morte compartilhada com todos os pecadores. Isto quer dizer que nós morremos com Cristo.
A morte de Jesus é a nossa morte, pois não tendo pecado ele não deveria morrer. Ele morreu a minha morte para o pecado e eu devo levar sempre e por toda a parte a sua morte como a minha morte, a fim de manifestar a sua vida em meu corpo mortal. A morte de Jesus era a nossa e, quando nós levamos pela fé a sua morte como nossa morte, nós temos as condições de expressar a sua vida em nossos corpos mortais, como a nossa vida.
Uma vez mortos para o pecado em Cristo, ganhamos a vida de Cristo na sua ressurreição. Perdemos a nossa vida juntamente com Cristo e recebemos uma nova vida na ressurreição. A obra de Cristo não é reformar a nossa velha vida, mas crucificá-la. Cristo tira a nossa vida egoísta na cruz e nos dá outra vida na ressurreição. Não há salvação cristã envolvendo restauração da vida adâmica. Para a vida do pecado só a morte para o pecado em Cristo.
Deus não aproveita nada de nossa antiga vida totalmente contaminada pelo pecado. Ele a crucifica e substitui pela nova vida de Cristo. A vida que salva o pecador é a vida ressuscitada. Não há salvação sem ressurreição e não há ressurreição sem morte da velha vida.
Primeiro temos que morrer para a vida pervertida pelo pecado e depois ressurgir com a vida ressuscitada da morte. É levando sempre e em todo lugar o morrer de Jesus que temos garantido a manifestação da vida de Cristo em nossos corpos mortais. Em um funeral genuinamente cristão, enterramos algo, não alguém; aquilo que baixa à sepultura é a casa, não o inquilino. A morte do corpo mortal é o prenúncio do homem eterno. Morremos e ressuscitaremos com corpos glorificados para que não venhamos mais a morrer.
Deus não fez o homem para a morte ou perdição. Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. 1 Coríntios 15:21 e 26. A morte de Cristo é o fim do império da morte e a sua ressurreição o início do reino da vida eterna para a humanidade que nele crê. Todos os que crêem em Cristo recebem a vida eterna.
Assim a morte do corpo não passa de um incidente físico em uma carreira imortal. Os santos que morrem podem ser merecidamente invejados, enquanto os pecadores que vivem podem ser igualmente lamentados. Para o cristão, a morte física é o êxodo, o içar das âncoras, a chegada ao lar. Aqui somos navios ancorados; na morte somos lançados em nosso verdadeiro elemento. Sou um morto na cruz com Cristo e vou morrer no meu corpo, a fim de alcançar a plenitude da vida abundante que nasce da morte em um corpo glorificado por Cristo.
Glenio Paranaguá
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